Entrevista

(Transcrição da entrevista à enfermeira Tânia)

Relação entre imunidade e cancro sobre a perspectiva de uma enfermeira.

24/09/2025, no Hospital Pediátrico de Coimbra.

A entrevistadora chama-se Cristiana Nóbrega.

A entrevistada chama-se Tânia Marçal.

Compreender a relação entre imunidade e cancro, cuidados de enfermagem e perspetivas pessoais.
Transcrição integral (com cortes de ruído, hesitações, repetições, ou assuntos que fujam ao tema apresentado).


Entrevistadora: Olá, eu sou a Cristiana Nóbrega, muito obrigada por estar disponível para falar comigo hoje. Estou a fazer um projeto de grupo sobre o sistema imunitário, e gostaria de ouvir a sua experiência. (Antes de começarmos, posso gravar a conversa para depois transcrever com maior precisão?)

Entrevistada: Olá, sim, claro. Parece-me uma iniciativa bastante interessante, e estou disponível para contribuir com o que puder, com base nos meus conhecimentos.

Entrevistadora: Então, antes de começarmos vou fazer algumas perguntas, para dar a conhecer aos nossos leitores um pouco mais sobre si. Como se chama? Que idade tem? Há quanto tempo se encontra neste serviço (oncologia pediátrica)?

Entrevistada: Ok, então, chamo-me Tânia Marçal, tenho 25 anos, e vai fazer 9 meses agora no final de Setembro, ou seja, comecei a trabalhar neste serviço em Janeiro.

Entrevistadora: Obrigada. Então, para iniciar gostava de perceber melhor como o sistema imunitário é afetado pelo cancro, e com isso em mente, pergunto-lhe, de que forma os tratamentos, nomeadamente, a quimioterapia, a radioterapia e a imunoterapia influenciam a imunidade dos utentes?

Entrevistada: Então, eu vou olhar um bocadinho para o meu papel, mas quero que saibas que estas respostas são um bocadinho daquilo que eu sei, um bocadinho daquilo que eu fui investigar, porque ao longo do tempo que estou no serviço também tive de estudar, também tive de perceber como é que posso ajudar os meus utentes e como é que eu posso ajudar ao perceber como é que funciona o corpo deles. O sistema imunológico, como tu sabes, serve para defender o nosso organismo. Tem células que defendem o nosso organismo, como os neutrófilos, os linfócitos, que são tipos de glóbulos brancos. E que tem como função principal defender através da identificação de células anormais ou das mutações em células, como tu sabes e, portanto, eliminar as ditas células más, antes delas se transformarem totalmente em células tumorais. Portanto, na quimioterapia este processo estimula a imunossupressão, que consiste na destruição de células, que se dividem rapidamente e, consiste ainda na neutropenia, que tu já conheces, que todos os meninos passam normalmente após o período de ciclo de quimioterapia, em que existe diminuição de neutrófilos, levando a um maior risco de infeção. Portanto, está no sistema imunológico mais deprimido.

No caso da radioterapia é um bocadinho diferente e neste eu já não tenho tanta experiência, mas fui procurar um bocadinho para ti e acontece linfopenia, que é então a redução de linfócitos, que é um tipo de glóbulo branco e este tipo de glóbulo branco atua no reconhecimento dos corpos estranhos ao organismo e de estranhos através da criação de anticorpos.

Entrevistadora: Ou seja, qual é a diferença entre ficar com a neutropenia e a linfopenia?

Entrevistada: A neutropenia é a destruição de neutrófilos, que é outro tipo de glóbulo.

Entrevistadora: Ou seja, neutrófilos estão mais feitos a apanhar uma infeção e linfopenia, o que é que acontece assim mais?

Entrevistada: Têm mais ou menos o mesmo tipo de reação, mas é um bocadinho diferente, digamos. Acaba por ter a mesma reação, porque é a destruição, lá está, de glóbulos brancos, que atuam na defesa do organismo, de corpos estranhos, mas têm reações diferentes.

E depois, imunoterapia. Os diferentes tipos de terapia imunológica têm como objetivo alterar ou adaptar o teu sistema, quer seja de forma a aumentar as defesas, como a reduzir reações indesejadas, como as alergias e todo o tipo de reações que vocês têm à quimioterapia e à imunoterapia.

Entrevistadora: Então é possível fazer alergia à quimioterapia?

Entrevistada: Sim, e a outro tipo de medicação que vocês também tomam associada à quimioterapia. Tipo o Ondansetrom e todas as proteínas que vocês tomam, como a aflatericina.

Entrevistadora: Eu não sabia, mas é interessante. Segunda pergunta, existe diferenças na forma como o sistema imunitário é afetado nos diferentes tipos de cancro ou os efeitos são parecidos?

Entrevistada: Sim, e por isso mesmo existem terapias diferentes para cada tipo de cancro e para cada utente. Na maior parte dos utentes com o mesmo tipo de cancro a terapia é igual, se houver resposta do corpo à terapia utilizada ou não, mas dependendo do tipo de cancro a terapia muda. São utilizados diferentes citostáticos na quimioterapia e diferente medicação associada a esses citostáticos.

Entrevistadora: De que forma a idade do doente influencia a forma como o seu sistema imunitário reage?

Entrevistada: Então, como tu podes ter uma leve ideia, quanto mais novos somos menos desenvolvido o nosso sistema imunológico está, ou seja, mais imaturas são as células. E, portanto, existe uma resposta melhor quanto mais velho tu és. Eu estou a falar de mais velho dentro da idade pediátrica, ou seja, até ao jovem, ou seja, uma criança de 3 anos tem um sistema menos desenvolvido do que o teu. Por isso, num cenário ideal tens um sistema imunológico melhor e que vai ter uma melhor resposta às terapias utilizadas para curar o teu tipo de cancro, do que uma criança mais nova que tu, por exemplo.

Entrevistadora: Sempre pensei que quanto mais novo melhor reagiam à quimioterapia e isso tudo.

Entrevistada: Não, é ao contrário. Imagina, é bom, porque como as células não estão tão desenvolvidas, a quimioterapia vai destruí-las mais facilmente. Mas, por outro lado, também tens toda a outra parte dos efeitos secundários e da destruição de células boas do corpo. Portanto, o ideal é mesmo aquela idade entre os 10 e os 15, que é quando o teu sistema imunológico tem uma melhor resposta a todo o tipo de terapias e está mais forte, digamos assim. Porque, em contrário, quanto mais tu envelheces, mais o teu sistema imunológico decai e menos células são produzidas, por exemplo, os idosos têm uma resposta muito mais lenta a toda a terapia.

É como uma montanha. Começa por subir, vem cá abaixo, tem um pico e depois decresce novamente. É assim que as tuas células funcionam.

Entrevistadora: Ou seja, apesar dos adultos, por exemplo, com 25 anos, terem células com mais conhecimento dos vírus, não significa que eles tenham a melhor resposta?

Entrevistada: Exatamente.

Entrevistadora: Obrigada! Agora gostaria de falar um pouco sobre o teu dia-a-dia como enfermeira neste serviço. Começo então por perguntar, quais são os cuidados que considera mais pertinentes para proteger a imunidade dos seus utentes?

Entrevistada: Ok, eu meti aqui umas coisinhas que tu também nos vês todos os dias a fazer, como a lavagem das mãos antes e depois do contacto com o utente, da preparação medicamentosa, basicamente, lavar as mãos sempre. Em qualquer momento, a todo o momento, é o mais importante.

Entrevistadora: E é mais importante lavar as mãos ou desinfetar?

Entrevistada: Lavar. Lavar sempre, porque desinfetar estás a matar alguns dos micróbios, bactérias que estão nas tuas mãos, mas não todos e, portanto, lavar é o mais importante. Na nossa profissão, nunca se pode preparar a medicação sem lavar as mãos primeiro. Podemos desinfetar, mas temos de as lavar. Podemos desinfetar depois de lavar, mas temos de as lavar. É obrigatório. E também a utilização de EPIs, que são os equipamentos de proteção individual, como as máscaras cirúrgicas, as luvas, as batas, e todo o equipamento de proteção a nível dos citostáticos da quimioterapia, que é a bata, as luvas de quimioterapia, a máscara cirúrgica com proteção ocular (a viseira) e a touca. Depois, a utilização da máscara especialmente em utentes neutropénicos, ou seja, em descida de valores, é essencial e obrigatório. A utilização de técnica assética. Sabes o que é a técnica assética?

Entrevistadora: Não.

Entrevistada: Há a técnica limpa, que utilizas, por exemplo, para mexer em xixis, cocós, esse tipo de coisas, em que tu utilizas as luvas normais. E a técnica assética, em que utilizas as luvas cirúrgicas. Usas essas luvas sempre que vais fazer um procedimento assético, ou seja, um procedimento em que tens de ter zero bactérias. Todo o teu espaço tem de estar completamente estéril. E isso inclui os cuidados aos cateteres centrais, porque os cateteres centrais envolvem um manuseamento mais cuidadoso, visto que estamos a lidar com veias de grande calibre e mais ligadas ao coração e, portanto, temos de utilizar as luvas cirúrgicas, a máscara e um campo cirúrgico. Depois, também, como foi falado, a gestão de visitas durante o internamento e também ao domicílio, porque qualquer pessoa que venha de fora é uma ameaça à vida dos nossos meninos, mesmo que seja uma pessoa conhecida, mesmo que saibamos que a pessoa vai respeitar as regras do hospital e do internamento, tem de ser controlada nesta parte.

Como existe, então, esta descida de valores e existe um aumento do risco de vocês apanhar uma infeção ou uma bactéria, há a necessidade de utilizar um quarto isolado, sem ninguém ao teu lado. Só em casos muito extremos é que ficas com alguém no quarto. Ainda, a utilização de máscara no serviço, incluindo corredores e a desinfeção e lavagem diária dos quartos diária.

Entrevistadora: De que forma a equipa de enfermagem colabora com os médicos e outros profissionais de forma a gerir e proteger a imunidade dos utentes?

Entrevistada: Olha, eu diria na formação de protocolos e guias para a gestão do risco de infeção; das IACs, que são as infeções associadas aos cuidados hospitalares; à gestão do risco em geral, aquilo que eu já tinha falado, do risco de queda. Somos nós, em associação com a equipa médica, que fazemos estes protocolos e que investigamos, dentro do serviço, o que é que podemos mudar ou o que podemos alterar para melhorar esta parte. E, talvez, diria a discussão diária, tanto com a equipa de enfermagem geral, através da passagem de turno, como com as técnicas auxiliares de saúde e com a equipa médica, todos os dias.

Entrevistadora: Obrigada. Agora, uma pergunta pessoal para si. Como tem sido lidar com a imunidade dos seus utentes desde que começou na área? Tem sido algo difícil?

Entrevistada: Tem sido um desafio, porque eu acho que quando algo tem haver com a proteção dos utentes nós temos de levar muito a sério, porque qualquer momento nosso em que estejamos mais distraídos ou que possamos esquecermos de algum passo importante, como a lavagem das mãos, pode indiciar um risco para o nosso utente, pode indiciar que o nosso atento vai ficar mais tempo internado e vai ter mais compromisso em todo o processo. Ou seja, qualquer infeção é um obstáculo para a continuação do ciclo de quimioterapia. E é o que nós não queremos e, portanto, todos os dias são um desafio. Eu diria que há situações mais complicadas que outras, em que temos de pensar muito bem no que estamos a fazer, principalmente por causa das idades dos meninos, porque há meninos que não conseguem ficar num quarto isolados, não conseguem ficar num quarto todo dia, e é compreensível, não é? Porque uma criança não devia estar habituada a estar num quarto todo dia sem ter contacto com outras crianças, com o meio exterior em si, com a sua família, com os seus amigos. E, portanto, é muito difícil gerir essa parte, diria que o nosso principal desafio aqui é arranjarmos formas de os entreter. E, ainda, de pensarmos como é que podemos melhorar a qualidade de vida dos utentes dentro do internamento, dentro do hospital.

Entrevistadora: Muito obrigada. Para terminar, gostaria muito de ouvir a sua perspetiva pessoal sobre os desafios e as aprendizagens que esta área lhe tem vindo a proporcionar? Poderia partilhar algum caso ou situação desafiante que já tenha experienciado aqui?

Entrevistada: Em geral?

Entrevistadora: Sim, algo que seja mais desafiante, que te tenha mesmo marcado.

Entrevistada: Eu diria lidar com meninos com sepsis. A sepsis é uma infeção descontrolada, em que acontece a infeção de todos os órgãos do teu corpo, pelo que, é muito difícil de controlar, é muito difícil de ver, principalmente nos primeiros dias, porque é algo muito sintomatológico, ou seja, os miúdos têm muitos sintomas, principalmente tremores, febres, ficam muito apáticos e, é algo que não é fácil de ver. E quando não conseguimos controlar e achamos que nada vai resolver, o nosso mundo descamba. Porque pensamos, às vezes, se não é o cancro que realmente destrói a vida destes miúdos, é o que vem associado ao cancro. Que são as infeções, que são as complicações associadas ao sistema nervoso central, todas essas coisinhas muito más. Acho que esse foi o meu maior desafio, já tivemos aqui um caso em que não conseguimos reverter esta sepsis. Infelizmente teve um término trágico...

[...]

E, portanto, sim, eu penso que esse tenha sido o meu principal desafio dentro do serviço. Para além de que toda a dinâmica do utente pediátrico-oncológico já é relativamente complexa, já não é algo fácil de lidar todos os dias, todos os turnos. Eu acho que só aí os enfermeiros da Oncologia Pediátrica já têm um grande desafio em mãos, quanto mais estas complicações.

[...]

Entrevistadora: Que conselho daria aos pacientes, aos pais e familiares para manter a imunidade durante o tratamento?

Entrevistada: Novamente, lavarem as mãos, porque não somos só nós que temos de lavar as mãos, também são vocês; terem todo o cuidado com a pele; levarem as feridas muito a sério; manterem sempre o vosso quarto arrumado e limpo, eu acho que é uma parte muito importante e que às vezes os nossos meninos e os pais esquecem-se; muito cuidado com a utilização de espaços públicos, especialmente muito populados, com muitas pessoas, a utilização de máscara em todo o sítio fora do hospital e dentro do hospital. Eu acho que o melhor conselho para os utentes e para as famílias é unam-se, sejam unidos, porque eu acho que quanto mais unidos são os pais e os filhos e os nossos meninos, melhor é a experiência em geral dentro do internamento. Até porque raramente pais unidos com filhos unidos não se unem também às equipas de enfermagem, às equipas médicas, e nós todos formamos uma equipa do "caraças". Acho que é esse o meu principal conselho.

Entrevistadora: O que considera mais gratificante no trabalho com crianças oncológicas?

Entrevistada: Boa pergunta. Eu diria que as crianças, adolescentes, têm sempre algo muito interessante a dizer, mesmo que elas não tenham noção, às vezes, do que estão a dizer, elas têm sempre algo engraçado para nos dizer e que, sem elas se aperceberem, mudam a nossa vida. Nem que sejam coisas, às vezes, estúpidas, nem que seja, "olha aqui o meu elefante", "olha aqui o meu balão", "olha aqui isto", "Vem comigo ali", "vem comigo aqui", isso já muda um bocadinho a nossa vida. Eu acho que ser admirado é uma sensação espetacular e, as crianças têm uma forma de nos ver e de ver as equipas profissionais dentro dos hospitais de uma forma espetacular. Eles veem-nos quase como heróis, que são coisas que a maior parte das pessoas, principalmente em Portugal, se esquecem. Que nós estamos cá todos os dias, temos de lidar com coisas muito difíceis todos os dias, e que levamos os problemas das nossas crianças, dos nossos utentes para casa. E isso, é algo muito difícil de lidar, principalmente porque, nós temos vidas, porque nós temos as nossas famílias, e, às vezes levamos os nossos problemas do hospital para os problemas de casa. E os nossos familiares ficam muito chateados porque nós damos muito mais importância aos nossos utentes e aos problemas dos nossos utentes, e, tentamos resolver os problemas dos nossos utentes com mais esforço e trabalho do que às vezes tentamos resolver os nossos próprios problemas. Eu acho que isso é uma realidade de qualquer enfermeiro, principalmente pediátrico, porque se o meu menino me disser que quer um desenho da Elsa, eu vou arranjar todas as formas possíveis para lhe arranjar um desenho da Elsa, mesmo que isso na cabeça das outras pessoas não faça sentido nenhum, para o trabalho que estamos aqui a fazer, para nós, faz. Porque era como eu te estava a dizer, isso melhora exponencialmente a qualidade de vida de um utente pediátrico dentro de um serviço de Oncologia. Qualquer distração, qualquer esforço, qualquer sorriso, qualquer palavra, muda a vida das outras pessoas e, consequentemente, muda a nossa, porque eu acho que quando tu tens essa vontade de ajudar e quando ajudas as pessoas, tu sentes-te, quase instantaneamente, bem contigo mesma. É como se mais nada no mundo interessasse. É do género, tu lá fora és uma pessoa, aqui dentro és uma pessoa completamente diferente, mas levas isso para fora, e, as pessoas notam essa diferença que tu fazes cá dentro, porque tu tens orgulho no que fazes. Principalmente quando tens orgulho no que fazes. Quando tens orgulho na diferença que fazes.

Entrevistadora: Agora a pergunta-chave. Considera que trabalhar neste serviço a fez ver o mundo e as coisas do dia a dia de forma diferente?

Entrevistada: Completamente. Eu todos os dias imagino como seria a minha vida se fosse um utente oncológico, ou se tivesse um filho com uma doença oncológica e, todos os dias penso, graças a Deus que eu sou saudável, graças a Deus que os meus familiares são saudáveis e que eu posso tê-los todos os dias comigo e que não tenho de estar dentro de um hospital e, todos os dias penso em vocês com muito carinho porque sei o esforço e todo o "trabalhão" que vocês têm em estar aqui dentro e, sei que vocês estão a sacrificar uma vida. Sim, uma vida, porque isto é uma vida, parecem só meses, parecem só anos, mas não são e, só quem está cá dentro é que sabe, que é uma vida. E ninguém sabe o quão difícil é para vocês e para as vossas famílias passarem por isto. Por mais que vocês mandem um sorriso, mandem uma "laracha", de vez em quando, mandem uma piada e sejam muito simpáticos e, que nos deem abraços e que digam, está tudo bem, estou feliz. Até temos uma menina, não sei se tu conheces a (L).

Entrevistadora: Sim, sei.

Entrevistada: Ela às vezes diz, "Eu tenho cancro, e daí?" E eu digo, "E daí? Miúda, tu tens cancro. Tu estás a passar por uma das maiores lutas que uma pessoa já imaginou e, estás a levar isto com a melhor naturalidade do mundo. Como é que é possível?" E a maior parte dos nossos meninos leva isto com a maior naturalidade do mundo e, eu penso, realmente, como é que é possível?

Entrevistadora: Porque passa a ser a nossa realidade.

Entrevistada: "A nossa realidade...". E é assustador pensar como é que é possível uma criança ter de aceitar estes internamentos, estas complicações, como a sua realidade. Enquanto há milhares de crianças iguais a ela que estão a viver a sua vida normalmente.

Entrevistadora: A frase que passou a ser a minha frase dos primeiros meses era, "Que remédio".

Entrevistada: Que remédio, não é? Não temos mais nada a fazer? Não podemos fazer mais nada? Se eu pudesse ir aí dentro e lutar contra o cancro, eu lutava, mas não posso, portanto, é esperar, não é? Nós dizemos que é a terapia do esperar, a esperoterapia. Ir e vendo. É a pior frase que podem dizer a alguém, mas eu acho que é aquilo que nos identifica, ir e vendo, porque realmente tem de ser mesmo um passo cada vez. Por isso sim, eu diria que mudou muito a forma como eu vejo o meu mundo, como eu vejo a sorte que tenho, porque antes de começar enfermagem, eu não sabia a sorte que tinha. Também já passei por isso com familiares meus e, portanto, sei o quão difícil é estar internado, sei o quão difícil é ter de lidar com um problema de saúde grave e, eventualmente, não conseguir lidar com o problema, mas, não consigo imaginar metade dos vossos problemas, não consigo imaginar o que é a vossa vida, porque realmente eu olho para mim e penso, eu tenho tudo. Às vezes posso não ter tudo, mas eu tenho tudo, tenho saúde, que é o que mais importa. E acho que não posso reclamar do que tenho, sendo que vos vejo todos os dias a lutar de uma forma tão injusta. É assim que eu penso. Eu sei que não podemos pensar assim, porque acontece e, a culpa não é nossa, nem vossa, mas realmente é injusto. Principalmente, porque, tantas crianças que eu vi aqui que têm uma força tão enorme e que são tão espetaculares e, são tão pequenas. E mesmo as não pequenas, são tão incríveis e são pessoas tão boas. Como é que uma coisa destas pode ter acontecido a uma pessoa destas, não é? Mas, no fim de toda a reflexão chegamos a conclusão de que, ok, acontece, é o que é, vamos lutar, vamos continuar a lutar, que é por isso que nós estamos cá. Acho que é isso.

Entrevistadora: Exatamente! Obrigada pela disponibilidade e pelo tempo. Perguntar apenas se tem algum comentário ou informação que queira acrescentar?

Entrevistada: Sim, uma informação: Setembro é o mês dourado, o mês de sensibilização para o campo pediátrico. E, portanto, acho espetacular que estejas a fazer este trabalho. Estás a educar também os teus colegas e os teus professores e, a sensibilizar as pessoas à tua volta, porque isso é muito importante. Porque a maior parte das vezes em que eu falo com colegas de outras áreas, ou com familiares ou com amigos, eles não têm noção de qual é a prevalência do cancro pediátrico em Portugal e, se as pessoas forem ver a verdade, os dados assustam.

Entrevistadora: Basicamente, um ano tem 365 dias e é uma criança por dia com mais 8, ou seja, 400 crianças diagnosticadas por ano, só em Portugal.

Entrevistada: Exatamente. E, portanto, eu acho que as pessoas precisam mesmo de perceber o que é que se está a passar em Portugal e, que as nossas crianças precisam de apoios, que na maior parte das vezes nós não temos. Principalmente para investigação portuguesa, não de fora. Nós já temos muito, principalmente no IPO de Lisboa e aqui em Coimbra, mas precisamos de mais para poder continuar a ajudar-vos, para continuar a fazer este trabalho.

Entrevistadora: Agradecer mais uma vez por ter partilhado a sua experiência comigo e com as pessoas que irão ler esta entrevista.

Entrevistada: Fazes muito bem, parabéns. 

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